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TEXTO ORIGINAL

1 Legenda Minor Cap I

[Cap. I. – De S. Clarae adolescentia et ordinis S. Damiani fundatione].

1 Venerabilis Christi Sponse, Deoque dicate Virginis Clare natalitium diem, Fratres carissimi, honorificentia debita celebrantes, sacra vite ipsius primordia, processum et exitum succinti sermonis compendio percurramus. 
2 Originis quidem nobilitate ac conversationis honestate, preclaris exorta parentibus, post acceptam superne gratie claritatem, non solum in urbe Assisio claruit, verum etiam in orbe mundano clarior ipsa refulsit. 
3 Nam cum mater ipsius nomine Hortulana, nobilem hanc plantulam uteri sui gestaret in hortulo, et partui iam vicina, ante crucem Crucifixum oraret attente, ut eam de partus pe-riculo salubriter expediret, vocem audivit dicentem sibi (cfr. Act 9,4): 
4 Ne paveas, mulier, quia quoddam lumen salva parturies, quod ipsum mundum clarius illustrabit. 
5 Quo edocta oraculo, iam natam infantulam et sacri baptismatis unda renatam, Claram vocavit, indubitabili fide tenens, manifestandam in ea fore de 
6 Edita mox in lucem parvula Clara, tempestivo velut aurora divinorum cepit charismatum lumine clarescere, ac intra teneros annos laudabilium morum ingenua probitate clarere.
7 Pietatis quidem suavitate repleta, tam ex dono nature quam gratie, manum libenter extendebat ad pauperes, et ut sacrificium suum gratius Deo foret, proprio corpusculo delicata subtrahebat cibaria, clamque per internuntios mittens, reficiebat viscera pupillorum. 
8 Sancte orationis studium habebat amicum, ubi Christi Iesu sepius odore bono respersa, suavique spiritus gustu ad perennes attracta delicias, paulatim vitam celibem actitabat. 
9 Sub vestibus quoque pretiosis ac mollibus, ciliciolum gerebat absconditum et tanquam nobilis altera virgo Cecilia mundo exterius florens, Christum interius induens (cf. Rom 13,15; Gal 3,27), dissimulato in posterum mortali coniugio, virginitatem suam Domino commendabat. 
10 Suavibus proinde velut aromatica cella redundans unguentorum odoribus, ore vicinorum laudari nescia cepit, et secretos actus veridica fama prodente, rumor bonitatis eius vulgabatur in populo. 
11 Talia fuerunt in domo paterna sue delibamenta virtutis, tales primitie spiritus, talia preludia sanctitatis. 
12 Audiens vero tunc celebre nomen Francisci, qui velut homo novus missus a Deo (Jo 1,12) oblitteratam perfectionis viam Crucifixi sectando vestigia renovabat, inspirante Patre spirituum, ubi opportunitas societatis et temporis affuit, ad eundem se contulit, suique cordis arcanum desiderium patefecit. 
13 Suadente igitur viro Dei mundi contemptum, et more fidelissimi paranymphi dulcia Christi connubia virgineis auribus instillante, non trahit in longum virgo preclara consensum, quinimo celestis ignis ardore succensa, terrene gloriam vanitatis ex alto con-temnit; carnis illecebras prorsus hor-rescit, thorum in delicto se nescituram (cf. Sap 3,13) proponit, ac eiusdem beati patris consiliis totaliter se committit. 
14 Iubet ex hoc Domini famulus, celebritate imminente Palmarum, ut in die festo ornata procedat ad palmam cum frequentia populorum, ac nocte sequenti cum Christo exiens extra castra (cf. Heb 13,13), mundanum gaudium in luctum convertat (cf. Iac 4,9) dominice passionis. 
15 Igitur domo, civitate e consaguineis derelictis, ad Sanctam Mariam de Angelis festinavit, ubi Fratres, qui in aula Dei sacras observabant excu-bias, prudentem virginem obviam Sponso cum lampade non vacua (cf. Matth 25, 7ss) procedentem, gestantes et ipsi lucernas ardentes in manibus exceperunt: eamque post crinium attonsionem coram altari Virginis matris dei habitu religionis indutam ad vicinum quoddam Sanctimonialium Monasterium deduxerunt. 
16 Nec decuit alibi florigere virginitatis Ordinem ad vesperam temporum excitari, quam in eius thalamo, que prima omnium atque dignissima sola exstitit mater et virgo, ut quasi ante ipsius sacratissimum thorum humilis ancilla sublimi sponso coniuncta, decantanda iugiter dulcia cantica dramatis angelica primitus nuntiatione perciperet et harmonica postmodum iubilatione cantaret. 
17 Gravi post hoc consanguineorum persecutione Deo sacrate virgini ab hoste humani generis suscitata, sed celestis dextere superata virtute, ad ecclesiam S. Damiani, de cuius re-paratione vir dei Franciscus, voce de ipsa cruce mirabiliter ad se facta, mandatum acceperat, una cum sorore virgine, nomine Agnete, per ipsius preces et lacrimas ad similia vota conversa, de eiusdem patris consilio commigravit. 
18 In huius locelli ergastulo pro celestis amore sponsi virgo se Clara conclusit. 
19 In hoc a mundi tempestate se celans, corpus quoad viveret, carce-ravit. In huius caverna macerie (cf. Cant 2,14) velut gemebunda simplexque columba nidificans (cf. Ier 48,28; Ps 67,14), virginum Christi collegium genuit, monasterium sacrum instituit, Pauperumque Dominarum Ordinem inchoavit. 
20 Opinione siquidem sanctitatis eius circumquaque diffusa, in odorem spiritualium unguentorum (cf. Cant 1,3) ceperunt adolescentule currere, omnique suavitati mundialium gaudiorum sponsi celestis preferre connubium, pro ipsius amore precipuo sub clausura perpetua vitam satagentes religiosam et celibem actitare.

TEXTO TRADUZIDO

1 Legenda Menor Cap I

[Cap. I. Sobre a adolescência de Santa Clara e a fundação de São Damião].

1 Irmãos caríssimos, celebrando com a devida solenidade o dia do aniversário de Clara, virgem consagrada a Deus, venerável esposa de Cristo, percorramos em palavras sucintas os sagrados primórdios, o desenrolar e a conclusão de sua vida. 
2 Oriunda de preclaros genitores, pela nobreza da origem e pela honestidade dos costumes, depois que recebeu a claridade da graça superna, brilhou não só na cidade de Assis mas também resplandeceu com maior clareza por todo o mundo. 
3 Quando sua mãe, chamada Hortolana, carregava ainda no jardim de seu seio esta nobre plantinha, e já estava perto de dar à luz, rezava atentamente diante do Crucificado na cruz, para que a ajudasse a escapar com saúde do perigo do parto, ouviu uma voz que lhe dizia: 
4 Não te assustes, mulher, porque salva vais parir uma luz que vai deixar o mundo mais claro. 
5 Instruída por esse oráculo, deu o nome de Clara à menina que nasceu quando renasceu pela água do santo batismo, segura numa fé inabalável de que dentro em breve nela haveria de se manifestar a claridade da luz prometida pelo céu. 
6 Mal tinha vindo à luz, a pequenina Clara começou a brilhar por um oportuno esplendor de carismas, como uma aurora, e se destacou nos anos mais tenros pela probidade natural de louváveis costumes. 
7 De fato, cheia de suavidade, tanto por dom da natureza quanto pela graça, estendia a mão de boa vontade para os pobres, e, para que seu sacrifício fosse mais agradável a Deus, privava seu próprio corpozinho dos alimentos delicados, mandando-os escondidos por mensageiros, e refazia o estômago de seus pupilos. 
8 Gostava de dedicar-se à santa oração, e nela, muitas vezes perfumada pelo bom odor de Cristo, e atraída pelo gosto suave do espírito para as delícias perenes, pouco a pouco ia levando adiante sua vida celibatária. 
9 Também usava sob as vestes preciosas e macias um pequeno cilício escondido e como a outra virgem nobre, Cecília, florescendo para o mundo exteriormente, vestindo Cristo interiormente, fazendo que deixava para depois o casamento mortal, recomendava ao Senhor a sua virgindade. 
10 Por isso, trescalando os suaves perfumes como um depósito de aro-mas, começou a ser louvada, sem o saber, pela boca dos vizinhos, e, espalhando-se a fama verdadeira dos atos secretos, espalhou-se pelo povo o comentário de sua bondade. 
11 Esses foram os prenúncios de suas virtudes na casa paterna, essas as primícias do espírito, esses os prelúdios da santidade. 
12 Quando ouviu o nome, então famoso, de Francisco, que como um homem novo enviado por Deus renovava o esquecido caminho da perfeição seguindo os vestígios do Crucificado, por inspiração do Pai dos espíritos, quando houve oportunidade por parte da sociedade e do tempo, foi procurá-lo e lhe manifestou o segredo de seu coração. 
13 Por sugestão do homem de Deus, que à maneira de um fidelíssimo padrinho, lhe instilava nos ouvidos virginais o desprezo do mundo e os doces esponsais de Cristo, a virgem preclara não adiou o consentimento, antes, acesa nos ardor do fogo celeste, desprezou altaneira a glória da vaidade terrena, teve um horror direto das ilusões da carne, propôs-se a ignorar o leito nupcial no delito, e se entregou totalmente aos conselhos do mesmo bem-aventurado pai. 
14 Então o servo do Senhor ordenou, na iminência da celebração das Palmas, que no dia da festa fosse enfeitada para receber a palma no meio do povo, e na noite seguinte, saindo com Cristo para fora do acampamento, transformasse a alegria mundana no luto da paixão do Senhor. 
15 Por isso, tendo abandonado a casa, a cidade e os parentes, apressou-se para Santa Maria dos Anjos, onde os frades, que montavam sentinela no recinto de Deus, receberam a virgem prudente que ia ao encontro de Esposo com a lâmpada não vazia, carregando eles mesmos fachos ardentes nas mãos: e depois que ela cortou os cabelos diante do altar da Virgem mãe de Deus e foi revestida com o hábito da religião, levaram-na a um mosteiro vizinho de mulheres consagradas. 
16 Nem era conveniente que fosse levada a florescer em outro lugar, na véspera dos tempos, a ordem da virgindade, a não ser no leito daquela que foi a primeira de todos e a única que se tornou mãe e virgem, para que como que diante de sua cama a humilde serva unida ao sublime esposo, ouvis-se primeiro os doces cânticos angélicos do drama que deveria cantar para sempre, e depois os cantasse em harmônica jubilação. 
17 Depois disso, o inimigo do gênero humano suscitou uma grave perseguição dos parentes, mas ela a superou pela força da virtude celeste e se mudou com uma irmã virgem, chamada Inês, que também tinha se convertido a votos semelhantes pelas preces e lágrimas do santo, para a igreja de São Damião, para cuja reparação o homem de Deus Francisco tinha recebido um mandato por uma voz da própria cruz que se dirigira milagrosamente a ele. 
18 Por amor do esposo celeste, a virgem Clara fechou-se na prisão desse lugarzinho. 
19 Aí, escondendo-se da tempestade do mundo, encarcerou seu corpo enquanto viveu. Fazendo seu ninho na caverna dessa muralha, como uma pomba simples e gemente, fundou um mosteiro sagrado, começando a Ordem das Senhoras Pobres. 
20 Espalhando-se, assim, por toda parte, a fama de sua santidade, no odor dos perfumes espirituais começaram a acorrer as jovens, preferindo a união com o esposo celeste a toda suavidade das alegrias do mundo, empenhando-se pelo seu amor principal a levar uma vida religiosa e celibatária sob clausura perpétua.