LÍNGUAS CLÁSSICAS

Página de Estudos das Fontes Pesquisadas

    TEXTO ORIGINAL

    Liber de Laudibus Beati Francisci - 3

    Caput III - De condescensione beati Francisci.

    1 Gaudebat multum de fratrum profectu vir sanctus, nunquam tamen infirmos seu tentatos despiciens. 2 Semel enim a quodam fratre tentato rogatus, ut oraret pro eo, dixit: “Fili, magis propter hoc servum Dei te credo. Nullus, inquit, servum Dei reputare se debet, quousque per tentationes et tribulationes transierit. 3 Anulus, inquit, quodam modo est victa tentatio, quo Dominus sibi desponsat animam servi sui. 4 Plures sibi de annosis meritis blandiuntur et se nulla sustinuisse tentamenta laetantur; sed quoniam ante congressum solus eos terror elideret, sciant spiritus sui debilitatem consideratam a Domino.5 Vix enim obiiciuntur certamina fortia, nisi ubi fuerit virtus perfecta”.

    6 Alius frater tentatione spiritus, quae incentivo carnis [subtilior est et] peior, cum diu vexatus [esset], ad beatum Franciscum veniens proiecit se ad pedes eius (cfr. Mat 15,30); 7 et cum lacrymis amarissimis et singultibus impeditus nihil dicere posset, cognovit eum Sanctus malignis spiritibus molestari et ait: “Praecipio vobis, daemones, ut amodo fratrem meum non impugnetis”. 8 Et statim frater ab omni tentatione liber effectus est. 9 In quo Sancti et in filium pietas et in daemones potestas apparuit.

    10 Tentatus enim ipse aliquando tentatis compati didicit. 11 Carnis enim tentationem aliquando maximam passus est; ad quam effugandam cum se durissime verberaret, nec tamen spiritus propter disciplinam discederet, nudum se demersit in nivem per molestias corporis educens de pectore vulnus mentis.

    12 Alio tempore immissa est sibi tentatio gravissima spiritus, utique ad coronae augmentum. 13 Anxiabatur exinde pluribus diebus, orabat et lacrymabatur acerrime. 14 Cum oraret in quadam die, audivit vocem in spiritu: “Francisce, si habes fidem ut granum sinapis, dices monti, ut transeat (cfr. Mat 17,19), et transibit”. Respondit Sanctus: “Domine, quis est mons, quem velim ipse transferre?”. 15 Et iterato audivit: “Mons est tentatio [tua]”. Et ille illacrymans dixit: “Fiat mihi, Domine, sicut (cfr. Mat 17,19) dixisti”. 16 Statim, omni tentatione propulsa, liber efficitur.

    17 Condescendebat humiliter eius animus, omnes fovens, omnibus deferens, venerabatur sacerdotes Ecclesiae, reverebatur seniores, nobiles et divites honorabat, pauperes autem intime diligebat et cum omni conditione hominum pacem servans ad hoc fratres sollicite inducebat. 18 Dicebat eis: “Pacem sicut nuntiatis ore, ita retineatis in corde, ut nullus per vos ad iram séu scandalum, sed potius ad benignitatem et mansuetudinem provocetur. 19 Ad hoc enim vocati sumus, ut vulneratos medeamur, alligemus confractos (cfr. Ez 34,4) et erroneos revocemus. 20 Multi videntur nobis membra diaboli, qui adhuc Christi erunt discipuli”.

    21 Fratribus autem compatienter non sicut iudex, sed sicut pater filiis et infirmo medicus loquebatur, ut impleretur in eo verbum Apostoli: Quis infirmatur, et ego non infirmor (2Cor 11,29)? 22 Ad infirmos etiam corpore multa sibi compassio, multa pro ipsorum necessitatibus sollicitudo, ad omnes denique se gerebat, prout singulis congruebat.

    23 Nam et reverendas personas ad Ordinem venientes honorificentia digna pertractans et pie cuique quod suum erat impendens considerabat prudenter in omnibus cunctorum graduum dignitatem.24 Revera discretione praecipua praeditus erat et simplicitatis gratia, ut vera cum simplicitate columbae prudentiam serpentis (cfr. Mat 10,16) retineret.

    TEXTO TRADUZIDO

    Livro dos Louvores de São Francisco - 3

    Capítulo III - A condescendência do bem-aventurado Francisco

    3 1 O santo homem ficava muito contente com o progresso dos irmãos, mas sem nunca esquecer os enfermos e os tentados. 2 Uma vez, rogado por um irmão tentado para que orasse por ele, disse: “Filho, por isso eu acredito ainda mais que és filho de Deus. Ninguém se deve julgar servo de Deus, enquanto não tiver passado por tentações e tribulações. 3 A tentação vencida é, de certo modo, o anel com que o Senhor desposa a alma de seu servo. 4 Muitos se orgulham por méritos de muitos anos e se alegram por não ter suportado nenhuma tentação; mas como só o terror já os derruba antes do combate, saibam que o Senhor observa a debilidade de seu espírito. 5 Pois, os fortes combates só se apresentam onde há virtude perfeita”.

    6 Outro irmão, atormentado pela tentação do espírito, que é mais sutil e pior do que o estímulo da carne, vindo ao bem-aventurado Francisco, jogou-se aos seus pés (cf. Mt 15,30); 7 e como nada podia dizer, impedido por lágrimas muito amargas e soluços, o santo reconheceu que ele era molestado por espíritos malignos e disse: “Ordeno-vos, demônios, que não ataqueis mais meu irmão”. 8 E imediatamente o irmão ficou livre de toda tentação. 9 Nisso se viu tanto a piedade do santo para com o filho quanto o seu poder diante dos demônios.

    10 Pois, tentado ele próprio algumas vezes, aprendeu a compadecer-se dos tentados. 11 Certa ocasião sofreu a maior tentação da carne; açoitou-se muito duramente para afugentá-la, e como o espírito não se afastou pela disciplina, mergulhou nu na neve, tirando do peito a ferida da mente pelo incômodo do corpo.

    12 Numa outra vez foi-lhe enviada uma gravíssima tentação do espírito, certamente para aumentar sua coroa. 13 A partir daí, ficou dias ansioso, orando e chorando intensamente. 14 Um dia, ao orar, ouviu em espírito uma voz: “Francisco, se tiveres fé como um grão de mostarda, dirás à montanha que mude daqui (cf. Mt 17,19), e ela mudará”. Respondeu o santo: “Senhor, que montanha que eu gostaria de mudar?”15 E ouviu de novo: “A montanha é tua tentação”. E ele disse em lágrimas: “Faça-se em mim, Senhor, como(cf. Lc 1,38) dissestes”. 16 Imediatamente, repelida toda tentação, ele ficou livre.

    17 Era condescendente por humildade, animando e respeitando a todos. Venerava os sacerdotes da Igreja, respeitava os mais velhos, honrava os nobres e ricos, mas amava intimamente os pobres e, conservando a paz com pessoas de todas as condições, induzia zelosamente os irmãos a fazerem o mesmo. 18 Dizia-lhes: “Tende no coração a mesma paz que anunciais com a boca, para que ninguém seja por vós provocado à ira ou ao escândalo, e sim para a bondade e a mansidão. 19 Pois, para isto fomos chamados: para curar os feridos, enfaixar os que têm fraturas (cf. Ez 34,4) e chamar de volta os que erram.20 Muitos que vemos como membros do demônio, ainda serão discípulos de Cristo”.

    21 Falava aos irmãos com compaixão, não como um juiz; mas como um pai aos filhos, como um médico ao doente, para que se cumprisse nele a palavra do Apóstolo: Quem está doente que eu não fique enfermo(2Cor 11,29)? 22 Tinha também muita compaixão para com os corporalmente enfermos e muita solicitude pelas necessidades deles. Afinal, comportava-se com todos como convinha a cada um.

    23 Pois tratando com digna honra as pessoas veneráveis que vinham à Ordem e dedicando piedosamente o que era seu a cada um, considerava prudentemente em todos a dignidade de todos os graus. 24 Era realmente dotado de especial discernimento e da graça da simplicidade, mantendo com a simplicidade da pomba a prudência da serpente (cf. Mt 10,16).