LÍNGUAS CLÁSSICAS

Página de Estudos das Fontes Pesquisadas

    TEXTO ORIGINAL

    Liber de Laudibus Beati Francisci - 4

    Caput IV - De paupertate

    4 1 Speciale inter alia Francisci studium fuit paupertatem et humilitatem servare honestisque iugiter occupari. 2 Habitaculis gaudebat pauperculis, casellis ligneis plus quam lapideis. 3 Saepe cum paucis in eremitoriis morabatur, ubi veprium clausura pro muro et parva pro domibus sufficiebant tuguria. 4 Sed in urbibus ita esse nec malitia hominum nec fratrum multitudo permittit. 5 Exsecrabatur in fratre vestes multiplices, pannos exquisitos et molles. 6 Non videtur pauperis duplex vestis, cum arctentur expensae per veterem resarcitam. 7 Vilis autem pannus asperior quidem, ponderosior et frigidior est, sed hoc Religionis et pium propositum exigit et facile usu cum gratia vincitur difficultas. 8 Si quem ad minus rigidam inferius tunicam necessitas cogeret, sustinebat, semper tamen volebat, ut foris in habitu vilitas et asperitas servaretur; in exemplum enim paupertatis et poenitentiae hominibus dati sumus. 9 Necessitatem vero, quam non ratio, sed voluptas ostentat, signum exstincti spiritus (cfr. 1The 5,19) asserebat. 10 “Ipsas etiam necessitates patienter non ferre nihil aliud est, inquit, quam Aegyptum repetere”.

    11 Libros paucos, non pulcritudine vel sumptu notabiles habere volebat eosque ad fratrum indigentium necessitatem paratos. 12 Pecuniam vero, pietatis etiam intuitu, a fratribus teneri vel tractari nolebat. 13 Unde fratrem, quem semel invenit denarios tetigisse, notabili ultione punivit. 14 Alius frater in via denarium, ut leprosis daret, socio prohibente et Sancti verbum, quo dixerat, inventam in via pecuniam non curandam, inculcante, accepit, sed statim frendens dentibus loquelam amisit. 15 Tandem proiecto denario, poenitentis labia solvuntur in laudem.

    16 Sed nec vasculum patiebatur vir sanctus residere in domo, cum sine ipso utcumque posset extremae necessitatis evadere servitutem, ne quando ad superflua perveniret. 17 Non diffidebat de provisione divina iuxta verbum, quod domino Papae dicenti, durum esse sine possessionibus vivere, intulit:18 “Domine, confido in Domino Iesu Christo, quoniam ipse, qui promittit nobis dare in coelo vitam et gloriam, non subtrahet nobis in terra sustentationem corporis necessariam tempore opportuno”.

    19 Cui etiam proponens parabolam: “Quidam, inquit, rex cum quadam muliere paupercula, sed formosa, ob eius decorem matrimonium contrahens filios ex ea venustissimos genuit. 20 Quos idem rex adultos sibique a matre, ut pasceret, missos, cum eos suos esse filios sibique consimiles cognovisset, amplexans dixit: ‘Mei estis filii et heredes, nolite timere; si enim de mensa nutriuntur extranei, iustum est, eos faciam nutriri, quibus tota de iure debetur hereditas. 21 Fratres pauperes Christi et Religionis pauperis sunt filii’”.

    22 Expertus fuerat, Dominum usque ad minima de ipso curare. 23 Cum enim de Hispania rediens per infirmitatem gravissimam debilis fratri Bernardo dixisset in via, quod de una avicula, si haberet, comederet;24 ecce per campum quidam avem peroptatam obtulit ei dicens: “Serve Dei, accipe quod tibi mittit divina clementia”. 25 Quam beatus Franciscus suscipiens Christum, qui sui curam haberet, per omnia benedixit.

    26 Nolebat mundo per temporalia implicari. Episcopo Assisii dicenti sibi, quod multum videbatur sibi aspera vita ista, nihil in hoc saeculo possidere, respondit: 27 “Si possessiones aliquas haberemus, arma ad protegendum necessaria nobis essent, quia quaestiones et lites plurimae inde oriuntur, de quibus Dei ac proximi solet dilectio impediri”.

    28 Dicebat frequenter: “Quantum fratres declinabunt a paupertate, tantum mundus declinabit ab eis. 29 Ipsi mundo exemplum et mundus eis necessarium debet victum. 30 Si fratres, inquit, subtraxerint bonum exemplum, et mundus subtrahet eis subsidium; quaerent, et non invenient (cfr. Apoc 9,6)”.

    31 Paupertati cavens vir Dei multitudinem nimiam metuebat et dicebat: “Oh, si poterit fieri, ut mundus raro fratres Minores aspiciens de paucitate miretur!”.

    32 In omnibus volebat fratres paucis esse contentos nec pauca ipsa, sive res sive loca, habere ut propria.  33 Nihil volebat proprietatis habere, ut omnia plenius posset in Domino possidere (cfr. 2Cor 6,10).

    TEXTO TRADUZIDO

    Livro dos Louvores de São Francisco - 4

    Capítulo IV - A pobreza

    4 1 Mais do que tudo, Francisco se esforçou especialmente por conservar a pobreza e a humildade e por ocupar-se permanentemente com coisas honestas. 2 Alegrava-se com as casinhas pobrezinhas, e mais com as de madeira do que com as de pedra.3 Muitas vezes, morava com poucos em eremitérios, onde a clausura de espinheiros e os pequenos tugúrios eram suficientes como casas. 4 Mas, nas cidades, isso não é permitido nem pela malícia dos homens nem pela multidão de irmãos. 5 Detestava em um frade muitas roupas, de panos requintados e delicados. 6 Veste dupla não parece conveniente a um pobre, porque as despesas são menores com uma usada e remendada. 7 Uma roupa barata é mais áspera, mais pesada e mais fria, mas o piedoso propósito da Religião o exige, e com a graça facilmente se vence a dificuldade pelo uso. 8 Se a necessidade obrigasse alguém a uma túnica menos áspera por baixo, sustentava e sempre queria que fossem conservadas por fora, no hábito, a vileza e aspereza; pois fomos dados aos homens como exemplo de pobreza e de penitência. 9 Afirmava, porém, que a necessidade apoiada no prazer e não na razão era sinal de espírito extinto (cf. 1 Ts 5,19). 10 Pois dizia: “Não suportar com paciência as próprias necessidades é como voltar ao Egito”.

    11 Queria poucos livros, não notáveis pela beleza ou preço, e adaptados à necessidade dos irmãos que precisavam. 12 E não queria que os frades tivessem ou usassem dinheiro, mesmo para a caridade. 13 Por isso, puniu com notável castigo um frade que descobriu ter tocado em dinheiro. 14 Outro frade pegou uma moeda no caminho para dar aos leprosos, mesmo quando o companheiro proibiu e lembrou a palavra do Santo que dissera que não se deve cuidar de dinheiro achado. Na mesma hora ele rangeu os dentes e ficou mudo.15 Depois, quando jogou fora o dinheiro, abriram-se em louvor os lábios do penitente.

    16 Mas, para jamais chegar a coisas supérfluas, o santo homem não admitia que houvesse em casa nem uma pequena vasilha quando era possível escapar sem ela da escravidão da extrema necessidade.17 Não duvidava da providência divina, como disse ao senhor papa, quando este lhe dizia que era duro viver sem posses: 18 “Senhor, confio no Senhor Jesus Cristo, porque ele, que nos promete dar no céu a vida e a glória, não nos vai tirar na terra, quando precisarmos, o sustento necessário ao corpo”.

    19 Contou-lhe também uma palava: “Um rei, contraindo matrimônio com uma mulher pobrezinha, mas formosa, por causa de sua beleza, gerou dela filhos muito bonitos. 20 Quando, já adultos, a mãe os mandou para que deles cuidasse, o rei reconheceu que eram seus filhos e semelhantes, abraçou-os, e disse: “Sois meus filhos e herdeiros, não temais. Se até estranhos se alimentam de minha mesa, farei com que sejam alimentados aqueles a a quem a herança é devida com todo direito. 21 Os filhos são os irmãos pobres de Cristo e da Religião pobre”.

    22 Tivera a experiência de que o Senhor cuidava dele até nas mínimas coisas. 23 Uma vez, voltando da Espanha, enfraquecido por uma doença muito grave, no caminho disse a Frei Bernardo que, se tivesse, comeria um pedaço de passarinho. 24 Eis que, no campo, alguém lhe ofereceu uma ave de acordo com o seu desejo, dizendo: “Ó servo de Deus, recebe o que te manda a divina clemência”. 25 Recebendo-a, o bem-aventurado Francisco bendisse por tudo a Cristo, porque cuidava dele.

    26 Não queria prender-se ao mundo por coisas temporais. Ao bispo de Assis, que lhe dizia parecer muito áspera essa vida de nada possuir neste mundo, respondeu: 27 “Se tivéssemos alguma propriedade, ser-nos-iam necessárias armas para protegê-la, porque daí se originam muitas questões e desavenças, que costumam impedir o amor a Deus e ao próximo”.

    28 Dizia freqüentemente: “Quanto mais os frades se afastarem da pobreza, tanto mais o mundo vai se afastar deles. 29 Eles devem ao mundo o exemplo, e o mundo deve-lhes o alimento necessário. 30 Se os irmãos retirarem o bom exemplo, também o mundo lhes retirará o auxílio; procurarão e não encontrarão” (cf. Ap 9,6).

    31 Cuidando da pobreza, o homem de Deus temia o número muito grande e dizia: “Oh, se pudesse acontecer que o mundo, ao ver raramente os frades menores, ficasse admirado por serem tão poucos!”

    32 Em tudo, ele queria que os frades se contentassem com poucas coisas e que não as tivessem como próprias, nem as coisas nem os lugares. 33 Não queria ter propriedade de nada, para poder possuir tudo (cf. 2Cor 6,10) mais plenamente no Senhor.