LÍNGUAS CLÁSSICAS

Página de Estudos das Fontes Pesquisadas

    TEXTO ORIGINAL

    Legenda Maior - IX,8

    8 
    1 Assumpto igitur socio fratre, Illuminato nomine, viro utique luminis et virtutis, cum iter coepisset, obvias habuit oviculas duas; 
    2 quibus visis exhilaratus, vir sanctus dixit ad socium: ”Confide, frater, in Domino (cfr. Sir 11.22), nam in nobis evangelicum illud impletur: Ecce ego mitto vos sicut oves in medio luporum (Mat 10,16)”. 
    3 Cum autem processissent ulterius, occurrerunt eis satellites Saraceni, qui, tamquam lupi celerius accurrentes ad oves, servos Dei feraliter comprehensos, crudeliter et contemptibiliter pertractarunt, afficientes conviciis, affligentes verberibus et vinculis alligantes. 
    4 Tandem afflictos multipliciter et attritos ad Soldanum, divina disponente providentia, iuxta viri Dei desiderium perduxerunt. 
    5 Cum igitur princeps ille perquireret, a quibus et ad quid et qualiter missi essent et quomodo advenissent, intrepido corde respondit Christi servus Franciscus, non ab homine, sed a Deo altissimo se fuisse transmissum, ut ei et populo suo viam salutis ostenderet et annuntiaret Evangelium veritatis. 
    6 Tanta vero mentis constantia, tanta virtute animi tantoque fervore spiritus praedicto Soldano praedicavit Deum trinum et unum et Salvatorem omnium Iesum Christum, ut evangelicum illud in ipso claresceret veraciter esse completum: Ego dabo vobis os et sapientiam, cui non poterunt resistere et contradicere omnes adversarii vestri (Luc 21,15). 
    7 Nam et Soldanus admirandum in viro Dei fervorem spiritus conspiciens et virtutem, libenter ipsum audiebat (cfr. Mar 6,10) et ad moram contrahendam cum eo instantius invitabat, 
    8 Christi vero servus superno illustratus oraculo: ”Si vis”, inquit, ”converti tu cum populo tuo ad Christum, ob ipsius amorem vobiscum libentissime commorabor. 
    9 Quodsi haesitas propter fidem Christi legem Mahumeti dimittere, iube ignem accendi permaximum, et ego cum sacerdotibus tuis ignem ingrediar, ut vel sic cognoscas, quae fides certior et sanctior non immerito tenenda sit”. 
    10 Ad quem Soldanus: ”Non credo, quod aliquis de sacerdotibus meis se vellet igni propter fidem suam defensandam exponere, vel genus aliquod subire tormenti”. 
    11 Viderat enim, statim quemdam de presbyteris suis, virum authenticum et longaevum, hoc audito verbo, de suis conspectibus aufugisse. 
    12 Ad quem vir sanctus: ”Si mihi velis promittere pro te et populo tuo, quod ad Christi cultum, si ignem illaesus exiero, veniatis, ignem solus intrabo; 
    13 et si combustus fuero, imputetur peccatis meis, si autem divina me protexerit virtus, Christum, Dei virtutem et sapientiam, verum Deum et Dominum Salvatorem (cfr. 1Cor 1,24; Ioa 17,3; 4,42) omnium agnoscatis”. 
    14 Soldanus autem optionem hanc accipere se non audere respondit, quia seditionem populi formidabat. 
    15 Obtulit tamen ei multa munera pretiosa, quae vir Dei, non mundanarum rerum, sed salutis animarum avidus, sprevit omnia quasi lutum. 
    16 Soldanus, videns virum sanctum tam perfectum rerum mundialium contemptorem, admiratione permotus, maiorem erga ipsum devotionem concepit. 
    17 Et quamvis ad fidem christianam transire nollet, vel forsitan non auderet, rogavit tamen devote famulum Christi, ut praedicta susciperet pro salute ipsius Christianis pauperibus vel ecclesiis eroganda. 
    18 Ipse vero, quia pondus fugiebat pecuniae et in animo Soldani verae pietatis non videbat radicem, nullatenus acquievit.

    TEXTO TRADUZIDO

    Legenda Maior - IX,8

    8 
    1 Tomando, pois, como companheiro, um frade chamado Iluminato, um homem verdadeiramente de luz e de virtude, logo que começou a viagem encontrou duas ovelhinhas. 
    2 Exultando quando as viu, o homem santo disse ao companheiro: “Irmão, confia no Senhor, pois vai cumprir-se em nós aquela passagem do Evangelho:Eis que vos envio como ovelhas no meio de lobos (Mt 10,16)”. 
    3 Avançando mais, foram ao seu encontro guardas sarracenos, que, como lobos que avançam logo para as ovelhas, prendendo com ferocidade os servos de Deus, trataram-nos com crueldade e desprezo, injuriando-os, chicoteando-os e acorrentando-os. 
    4 Afinal, tendo-os afligido e atormentado de muitas maneiras, por disposição da divina providência, levaram-nos ao sultão, de acordo com o desejo do homem de Deus. 
    5 Quando o príncipe perguntou por quem tinham sido mandados, para quê, e como tinham chegado, Francisco, o servo de Cristo respondeu de coração intrépido que não tinha sido enviado por um homem mas pelo Deus Altíssimo para mostrar a ele e a seu povo o caminho da salvação e para anunciar o Evangelho da verdade. 
    6 E pregou diante do referido sultão sobre Deus trino e uno e sobre Jesus Cristo Salvador de todos, com tanta constância da mente, tanta virtude do ânimo, e tanto fervor do espírito, que se podia ver que estava claramente completo nele aquele passo do Evangelho:Eu vos darei boca e sabedoria, a que não poderão resistir nem contradizer todos os vossos adversários (Lc 21,15). 
    7 O sultão, vendo o admirável fervor espiritual e a virtude do homem de Deus, ouvia-o de boa vontade, e o convidou insistentemente a permanecer com ele. 
    8 Mas o servo de Deus, iluminado pelo oráculo superno, disse-lhe: “Se queres converter-te a Cristo, tu com o teu povo, por seu amor eu vou ficar morando convosco de muito boa vontade. 
    9 Mas se hesitas em deixar a lei de Maomé pela fé em Cristo, manda acender uma fogueira bem grande, que eu vou entrar no fogo com os teus sacerdotes, para que pelo menos assim saibas sem dúvida que fé mais certa e mais santa deve ser mantida”. 
    10 Respondeu o sultão: “Não creio que algum de meus sacerdotes queira expor-se ao fogo ou submeter-se a qualquer outro tipo de tormento para defender sua fé”. 
    11 Pois vira que um de seus presbíteros, homem autêntico e longevo, ao ouvir isso tinha fugido de sua presença. 
    12 Disse o homem santo: Se quiseres prometer-me, por ti e por teu povo, que vireis para o culto de Cristo, se eu sair ileso do fogo, vou entrar sozinho na fogueira. 
    13 Se eu queimar, seja isso imputado aos meus pecados, mas se a virtude de Deus me preservar, reconhecereis Cristo, virtude e sabedoria de Deus, como verdadeiro Deus e Senhor Salvador de todos”. 
    14 O sultão disse que não ousava assumir essa opção porque temia uma sedição do povo. 
    15 Mas ofereceu-lhe muitos presentes preciosos, que o homem de Deus, ávido da salvação das almas e não das coisas mundanas, desprezou todos como barro. 
    16 Vendo o sultão que o homem santo era um desprezador tão perfeito das coisas do mundo, ficou muito admirado e concebeu uma devoção ainda maior por ele. 
    17 E embora não quisesse passar para a fé cristã, ou talvez não ousasse, rogou, porém, devotamente ao servo de Cristo que recebesse os referidos presentes para dar aos pobres ou às igrejas cristãs, por sua salvação. 
    18 Mas ele, que fugia do peso do dinheiro e que não viu no ânimo do sultão a raiz de uma piedade verdadeira, não concordou de modo algum.