LÍNGUAS CLÁSSICAS

Página de Estudos das Fontes Pesquisadas

    TEXTO ORIGINAL

    Legenda Maior - Miraculis I,5

    5 
    1 In Cathalonia quoque apud Ilerdam accidit, virum quemdam nomine Ioannem, beato Francisco devotum, quodam sero per quamdam incedere viam, in qua pro inferenda morte latitabant insidiae, non quidem ipsi, qui inimicitias non habebat, sed alteri cuidam, qui videbatur similis eius et tunc erat in comitatu ipsius. 
    2 Exsurgens autem quidam de insidiis, cum hostem suum hunc esse putaret, tam letaliter eum plagis pluribus gladiavit, ut nulla prorsus superesset spes recuperandae salutis. 
    3 Siquidem primo inflicta percussio humerum cum brachio pene totum absciderat, et ictus alius sub mammilla tantam reliquerat aperturam, ut flatus inde procedens circa sex candelas simul iunctas exstingueret. 
    4 Cum igitur iudicio medicorum ipsius impossibilis esset curatio, pro eo quod, putrescentibus plagis, ex eis foetor tam intolerabilis exhalaret, ut etiam ipsa eius uxor vehementer horreret, nullisque iam humanis iuvari posset remediis, convertit se ad beati Patris Francisci patrocinium quanta poterat devotione poscendum, quem et inter ipsos ictus una cum beata Virgine fidentissime invocarat. 
    5 Et ecce, misero in lectulo calamitatis solitario decubanti, cum Francisci nomen vigilans et eiulans frequentius replicaret, adstitit quidam in habitu fratris Minoris, per fenestram, ut ei videbatur, ingressus. 
    6 Qui vocans eum ex nomine cfr. Is 40,26), dixit: ”Quia fiduciam habuisti in me, ecce, Dominus liberabit te”. 
    7 A quo cum aeger, quis esset, inquireret, Franciscum ille se esse respondit et statim appropians vulnerum illius ligaturas resolvit et eum unguento per omnes plagas, ut videbatur, perunxit. 
    8 Statim autem, ut sensit illarum sacrarum manuum stigmatum Salvatoris virtute sanare valentium suavem contactum, expulsa putredine, restituta carne et vulneribus solidatis, restitutus est integre pristinae sospitati. 
    9 Quo facto, beatus Pater abscessit. 
    10 Et ipse sentiens se sanatum et in vocem divinae laudis et beati Francisci laetanter erumpens, vocavit uxorem. 
    11 At illa celerius currens et stare iam videns quem sepeliendum credebat in crastino, cum esset stupore vehementer perterrita, viciniam totam clamore complevit. 
    12 Accurrentes autem sui, cum illum niterentur tamquam phreneticum in lecto reponere, et ille econtra renitens assereret et ostenderet se sanatum; tanto sunt stupore attoniti, ut quasi sine mente omnes effecti, phantasticum esse crederent quod videbant, quia quem paulo ante conspexerant plagis atrocissimis laniatum et totum iam marcidum, plena cernebant incolumitate iucundum. 
    13 Ad quos ille qui factus fuerat sanus: ”Nolite timere”, inquit, ”nolite credere inane quod cernitis, quia sanctus Franciscus modo a loco recessit et illarum sacrarum manuum tactu me integre ab omni plaga curavit”. 
    14 Crebrescente tandem huius fama miraculi, accelerat populus omnis et videntes in tam aperto prodigio stigmatum beati Francisci virtutem, admiratione simul et gaudio replebantur Christique signiferum magnis laudum praeconiis extollebant. 
    15 Digne quidem beatus Pater, carne iam mortuus et vivens cum Christo, praesentiae suae ostensione mirabili et manuum sacrarum palpatione suavi vulnerato letaliter viro sanitatem concessit, 
    16 cum illius in se stigmata tulerit, qui, misericorditer moriens et mirabiliter surgens, vulneratum genus humanum et semivivum relictum IcfLuc 10,30) plagarum suarum virtute sanavit.

    TEXTO TRADUZIDO

    Legenda Maior - Milagres I,5

    5 
    1 Na cidade de Lérida, na Catalunha, aconteceu que um homem chamado João, devoto do bem-aventurado Francisco, passava uma noite por uma rua em que, para matar, estava armada uma emboscada, não para ele, que não tinha inimizades, mas para um outro que era parecido com ele e estava então em sua companhia. 
    2 Um dos que estavam na cilada levantou-se e, achando que aquele era o seu inimigo, feriu-o com muitos golpes de espada de maneira tão letal, que não havia nenhuma esperança de que recuperasse a saúde. 
    3 Pois o primeiro golpe lhe cortara quase todo o ombro com o braço, e o segundo fizera uma abertura tão grande sob o mamilo que o sopro que de lá saía apagou cerca de seis velas juntas. 
    4 Como, a juízo dos médicos, era impossível curá-lo, porque, apodrecendo as chagas, saía delas um fedor tão intolerável que mesmo sua esposa tinha ficado muito horrorizada, e já não podia ser ajudado por remédios humanos, converteu-se a rogar o patrocínio do bem-aventurado Pai Francisco com toda a devoção que podia. Já o tinha invocado confiantemente, junto com a bem-aventurada Virgem Maria, quando estava recebendo os golpes. 
    5 E eis que, estando o coitado deitado no leito solitário da calamidade, como repetia com freqüência o nome de Francisco velando e gemendo, apareceu alguém com o hábito de frade menor, entrando pela janela, como lhe pareceu. 
    6 Chamando-o pelo nome, disse: “Porque tiveste confiança em mim, o Senhor vai te libertar”. 
    7 O doente perguntou-lhe quem era, e ele respondeu que era Francisco. Logo se aproximou, tirou o curativo de suas feridas e ungiu-o em todas as chagas com um ungüento, como lhe pareceu. 
    8 Mas logo que sentiu o suave contato daquelas mãos sagradas, capazes de curar pela virtude dos estigmas do Salvador, expulsou-se a podridão, a carne foi recomposta, as chagas curadas e ele voltou integralmente à saúde anterior. 
    9 Feito isso, o bem-aventurado pai foi embora. 
    10 Ele, sentindo-se curado, prorrompendo em vozes de louvor a Deus e ao bem-aventurado Francisco, chamou a esposa. 
    11 Ela correu depressa e vendo em pé aquele que achava que ia ser sepultado no dia seguinte, ficou muito assustada e ajuntou com seu grito toda a vizinhança. 
    12 Os seus, acorrendo, tentavam recolocá-lo na cama como se fosse um frenético, mas ele resistia afirmando e mostrando que estava curado. Ficaram todos tão atônitos que quase perderam a cabeça e achavam que estavam vendo algo fantástico, porque aquele que um pouco antes tinham visto ferido com chagas muito atrozes, e já todo apodrecido, viam agora bonito, completamente incólume. 
    13 E o que fora curado lhes disse: “Não temais, e não creiais que é falso o que vedes, porque São Francisco foi embora agora há pouco daqui, e me curou completamente de todas as feridas com o toque daquelas mãos sagradas”. 
    14 Na medida em que foi crescendo a fama do milagre, acorreu o povo todo e vendo em tão aberto prodígio a virtude dos estigmas do bem-aventurado Francisco, encheram-se ao mesmo tempo de admiração e de alegria, e glorificavam com grandes manifestações de louvor o portador dos sinais de Cristo. 
    15 Pois foi muito justo que o bem-aventurado pai, já morto pela carne e vivendo com Cristo, concedesse a saúde àquele homem mortalmente ferido com a admirável manifestação de sua presença e com o suave contato de suas mãos sagradas, 
    16 uma vez que trazia em si os estigmas daquele que, morrendo misericordiosamente e ressuscitando admiravelmente, curou com a virtude de suas chagas o gênero humano ferido e deixado semivivo.