LÍNGUAS CLÁSSICAS

Página de Estudos das Fontes Pesquisadas

    Legenda Maior - Introdução

    1. Por que "Legenda Maior"? 
    A "Vida de São Francisco de Assis" publicada em 1263 ficou conhecida como Legenda Maior. São Boaventura, que tinha sido eleito ministro geral em 1257, no capítulo de Roma, encarregou-se de escrever uma nova vida de São Francisco no capítulo de Narbona (o mesmo que publicou as primeiras constituições franciscanas), em 1260. Apresentou-a à Ordem no capítulo de Pisa, em 1263, já em 34 cópias (uma para cada província) bem revistas e já acompanhada por uma Legenda ad usum chori, que ficou conhecida como "Legenda Menor". 
    O livro deve ser posterior ao dia 23 de abril de 1262, porque fala da morte de Frei Egídio, que ocorreu nesse dia. 
    Por oposição aos trabalhos de Tomás de Celano, ficou conhecido também, nos primeiros tempos, como "Legenda Nova", considerando-se os livros de Celano como "Legenda Antiqua". 
    Na verdade, apesar de se apresentar como novidade, historicamente é uma compilação de fatos tirados das biografias anteriores. Mas se apresenta numa reinterpretação tão interessante que pode ser tida como um resumo de espiritualidade. Teve tanto êxito que o capítulo de Paris, em 1266, mandou queimar todas as outras "vidas" de São Francisco então existentes. A Legenda Maior sempre foi amplamente reproduzida e traduzida. 
    Sua edição crítica foi publicada em 1941, no vol. X da Annalecta Franciscana e está disponível no volume "Fontes Franciscani", de 1995, como também na “Summa Franciscana”.

    2. O autor 
    João Fidanza nasceu em Bagnorregio, perto de Viterbo, na Itália, em 1221. Muito jovem, foi mandado para estudar em Paris. Em 1240, sendo já "mestre em artes", começou a teologia. Entrou na Ordem provavelmente em 1243, impressionado por seus mestres franciscanos. Em 1248 obteve a licença para lecionar teologia. Por volta de 1250 obteve o bacharelato em Bíblia e por volta de 1253 passou a ser catedrático. Aos 2 de fevereiro de 1257, recomendado pelo geral resignatário, João de Parma, foi eleito ministro geral no capítulo de Roma. 
    Em 1265, foi nomeado bispo de York, mas conseguiu que o papa voltasse atrás. Em 1273, foi eleito cardeal e sagrado bispo de Albano, para dirigir o Concílio de Lião em companhia de Santo Tomás de Aquino. 
    Seu colega dominicano morreu em 7 de março. Sobrecarregado de trabalho, Boaventura não resistiu e morreu no dia 14 de julho de 1274. Sucedeu-lhe como ministro geral Frei Jerónimo de Áscoli, que depois foi papa com o nome de Nicolau IV (1288-1292). 

    3. O Livro 
    O trabalho de São Boaventura é certamente riquíssimo, como literatura e como teologia, embora suas idéias possam estar bem longe do que Francisco e seus companheiros viveram de fato: ele escreveu e trabalhou para que a Ordem mudasse. Tinha desenvolvido sua teologia da vida espiritual no livro "As três Vias", em que apresentava os passos para chegar a Deus: purificação, iluminação e união. Na mesma época, trabalhara no livro "Itinerário da Mente Deus", em que mostrava a vida contemplativa de Francisco crescendo em sete degraus que simbolizavam as asas do Serafim. Na sua Legenda, procurou mostrar como isso aconteceu na vida de São Francisco. Além do esquema que mostramos no quadro abaixo, em que acompanha as três vias, São Boaventura também aproveita os sete degraus apresentando sete episódios da vida de Francisco relacionados com a cruz (LM 13,10). Mas Francisco também é apresentado, desde o Prólogo, como o "Anjo do sexto selo". Só isso já mostra como é forte a linguagem simbólica na Legenda Maior, aliás repleta de alusões bíblicas e litúrgicas, de figuras e de símbolos, que o tornam um pouco compacto. 

    ESQUEMA DE LEGENDA MAIOR 
    Introdução 

    Prólogo 
    1. Sua vida no mundo 
    2. Conversão definitiva e restauração de três igrejas 
    3. Fundação da Ordem e aprovação da Regra 
    4. Progresso da Ordem sob sua direção e confirmação da Regra 
    A. Via Purgativa 
    5. Austeridade de vida e como as criaturas lhe proporcionam consolo (o prêmio por sua austeridade exterior e interior é o domínio sobre a natureza). 
    6. Humildade e obediência, favores com que Deus o cumulava (o prêmio por imitar Jesus Cristo pobre é conseguir o domínio sobre os demônios). 
    7. Amor à pobreza e intervenções miraculosas nas necessidades (o prêmio pela pobreza nas coisas e mesmo no conhecimento é sua confiança na Providência). 
    B. Via Iluminativa 
    8. Seu sentimento de compaixão e o amor que as criaturas lhe devotavam (o prêmio por estar integrado com Deus, consigo mesmo, com o próximo e com as criaturas e o domínio sobre as aves e os outros animais). 
    9. Fervor de sua caridade e desejo do martírio (o prêmio por viver o amor de Deus, de Nossa Senhora, dos anjos e dos apóstolos, por seu desejo de martírio, são as chagas). 
    10. Zelo na oração e poder de sua prece (o prêmio por viver sempre entregue à oração foi ter visto Jesus menino presente em Grécio). 
    C. Via Unitiva 
    11. Conhecimento das Escrituras e espírito de profecia (o prêmio por sua dedicação às sagradas Escrituras foi a união com a sabedoria eterna). 
    12. Eficácia de sua pregação e poder de curar (o prêmio por sua dedicação à pregação foi ter sido um enviado de Deus). 
    13. Os sagrados estigmas (o prêmio por sua união com Cristo crucificado foi obter os sete sinais da cruz, prova de que chegou à perfeição evangélica). 
    Conclusão 
    14. Sua admirável paciência e morte 
    15. Sua canonização e trasladação de seus restos mortais 
    Alguns milagres realizados após a morte de São Francisco 


    O livro não pode ser entendido como uma narrativa histórica atual. Além do mais, ele parece querer tirar São Francisco das contingências históricas e colocá-lo fora do tempo. Pode ter sido influenciado por sua fonte principal, a Vida II de Celano, mas ele mesmo diz: 
    "A história nem sempre segue a ordem cronológica dos fatos. A fim de evitar confusão, preferi ser mais sistemático. Por isso, ora agrupei acontecimentos que se deram em tempos diferentes, mas se referiam a assuntos semelhantes, ora separei outros que ocorreram ao mesmo tempo, mas se referiam a assuntos diferentes" (LM, prólogo). 
    Mesmo afirmando que visitou os lugares em que o santo viveu e que conversou com pessoas do seu tempo, a maior parte dos fatos narrados pela Legenda Maior são tirados de Celano. Apresentamos, no quadro abaixo, uma lista do que, de fato, pode ser considerado original de Boaventura. 

    Pontos originais na L. Maior 
    2,6: cura de um doente pelo beijo nos pés. 
    4,6: Clara suas Irmãs 
    4,7: um sarraceno admira a pobreza 
    4,8: a cura e vocação de Frei Morico 
    5,2: o desejo do céu ajuda a suportar o frio 
    5,5: conselhos para tratar com as mulheres 
    5,8: doente dos olhos por muito chorar 
    5,12: luz que ilumina na escuridão da noite 
    7,11: conserta a casa de um médico 
    7,13: ajuda uns marinheiros 
    8,5: ajuda os pobres 
    8,7: histórias de cordeiros 
    8,9: Silencia os pássaros em Veneza 
    8,10: os pássaros do Alverne 
    9,2: jejum por amor a Cristo 
    9,3: devoção aos santos 
    9,8: Francisco e o sultão 
    10,4: envolto numa nuvem resplandecente 
    10,7: licença para o Natal em Greccio 
    11,1: Francisco e os estudos 
    11,4: avisa um cavaleiro sobre sua morte 
    12,5: o estudante e a andorinha 
    12,6: o barco anda sozinho 
    12,9: dois milagres novos 
    12,10: dois milagres em favor de cegos 
    13,4: dúvida sobre revelação das chagas 
    13,7: milagres relacionados às chagas 
    13,8: testemunhas das chagas 
    13,9: louvor das chagas 
    13,10: as sete manifestações da cruz 
    14,2: agradecimento pelas doenças 
    15,1: o programa espiritual de Francisco 
    15,4: testemunhas das chagas em Assis 
    15,7: o exame dos milagres do santo 


    4. O Joaquimismo 
    Para compreender melhor a obra de São Boaventura, vamos lembrar que foi escrita em um momento em que muitos frades eram acusados de "joaquimistas". 
    Joaquim de Fiore foi um abade do sul da Itália, que viveu de 1135 a 1202. Ficou muito conhecido por suas profecias, em que dividia a história em grandes eras: 
    Era do Pai abrangia todo o tempo antes de Cristo. Foi governada pela lei e a atitude fundamental era a obediência serviçal. A virtude era o temor de Deus. Seus responsáveis eram os sacerdotes. 
    Era do Filho devia chegar até 1260. Governada pela graça, tinha como atitude fundamental a obediência filial: A virtude era a fé e os responsáveis eram a hierarquia com o clero secular. 
    Era do Espírito Santo começaria em 1260. Regida pelo amor, sua atitude fundamental seria a liberdade. A virtude era o amor e os responsáveis seriam os religiosos. 
    No último decênio antes de 1260, os religiosos estavam entusiasmados com essa proposta. Mas a hierarquia se sentiu ameaçada e condenou a obra do franciscano Geraldo de Borgo San Donino, que publicara Joaquim de Fiore. Também fez João de Parma renunciar, em 1257. 
    Apresentando São Francisco como "Anjo do sexto Selo", São Boaventura faz dele a figura central dessa história. Na Legenda Maior, mostra que ele foi um "homem do outro mundo", "quase angelical", o "angélico Francisco".

    5. Situação histórica em que foi escrita a Legenda Maior 
    São Boaventura se encarregou de escrever a sua biografia de São Francisco justamente no ano de 1260, em que devia começar a terceira era joaquimista. Em toda a década anterior, a Ordem tinha sofrido violentos ataques de fora, principalmente por parte da Universidade de Paris. Criticavam justamente às novidades do franciscanismo: a pobreza, o dinamismo, a mobilidade pastoral, a vontade de pregar, o fato de se misturar com o povo, participando de sua vida e religiosidade. 
    Frei Boaventura licenciara-se em teologia justamente nessa Universidade, em 1253, o ano que Santa Clara morreu, e em que foi feito o seu Processo de Canonização. E entrara de corpo e alma na defesa dos mendicantes. 
    Em 1257, ano em que foi eleito geral, Tomás de Eccleston escreveu sua Crônica sobre os frades da Inglaterra. 
    Em 1258 morreu Frei Junípero e, em 1259, Frei Filipe Longo. Nesse tempo, Frei Boaventura esteve no Alverne e escreveu o seu "Itinerário". No mesmo ano, os dominicanos escreveram uma nova biografia de seu fundador e o seu capítulo geral mandou acabar com as outras antigas. 
    No mesmo capítulo de Narbona, em que foi encarregado da biografia, Boa-ventura tinha apresentado as "Constituições Narbonenses". Em setembro desse ano, consagrou a igreja do Alverne e, logo depois, foi a Assis presidir a mudança das Clarissas de São Damião para a nova basílica de Santa Clara. Nesse ano morreram Luquésio e Buonadona, conhecidos como os primeiros terceiros franciscanos. 
    Do inverno de 1260 até 1262, Boaventura ficou em Paris e escreveu o livro sobre as "Três Vias" e a Legenda Maior. 
    Em 1262 morreu Frei Egídio e Jordão de Jano ditou sua Crônica sobre os frades na Alemanha. 
    Em abril de 1263, pouco antes de entregar, em Pisa, a Legenda Maior, São Boaventura tinha presidido a mudança do corpo de Santo Antônio para Pádua.

    6. As "respostas" da Legenda Maior 
    Mesmo que não tenha tido uma intenção declarada, Boaventura deu, em seu livro sobre São Francisco, uma forte resposta tanto aos problemas externos quanto aos internos da Ordem. 
    Aos de fora, que chamavam os mendicantes de "nuntii Antichristi" (embaixadores do Anticristo), ele apresentou um Francisco que era "nuntius Christi" e mes-mo "signifer Christi" (porta-bandeiras de Cristo). 
    Para os que se opunham intransigentemente ao joaquimismo dos franciscanos, apresentou São Francisco como anjo de sexto selo. 
    Para os que viam os franciscanos co-mo "gêmeos" dos dominicanos, ele cuidou de nem lembrar São Domingos em sua Legenda. 
    Para os que, dentro da Ordem, choravam os "velhos tempos" de São Francisco, ele exaltou o Santo mas tirando-o do tempo contingente que passa e colocando-o numa dimensão transcendental. 
    Aliás, é bem característico um texto que Boaventura, devoto de São Francisco desde criança porque, por sua intercessão, sua mãe o livrara da morte, escreveu no seu livro "Epistula de Tribus Quaestionibus" (n. 13): 
    Confesso diante de Deus que foi isto que mais me fez amar a vida de São Francisco: porque é parecida com o começo e com a perfeição da Igreja, que começou com simples pescadores e chegou a doutores tão famosos e tão competentes. É isso que vemos na ordem de São Francisco, pois Deus mostra que ela não nasceu pela prudência dos homens mas através de Cristo e, como as obras de Cristo nunca decaem, só crescem, fica demonstrado que essa obra é divina, pois na companhia dos homens simples entraram também os sábios, sem achar que estavam se humilhando, pois, como fiz o Apóstolo: Se houver algum sábio entre vós, que se faça estulto para ser sábio". 
    7. Observações gerais 
    A Legenda Maior, como compila e reinterpreta os fatos quase quarenta anos depois da morte de Francisco, pois seu autor não conheceu o santo, não é uma fonte direta da vida dele se não soubermos ler até o que está por baixo, o que ela não teve intenção de contar. 
    É interessante lê-la em confronto com Celano, observando todas as diferenças mas também as sobreposições. 
    É fundamental perceber as novas interpretações que o movimento franciscano está recebendo. Boaventura coloca-se entre os que promovem e os que contestam a evolução do franciscanismo e sabe fazer um excelente trabalho, enriquecido por sua incontestável capacidade de teólogo e de místico. 
    Por isso, ele não ajudou apenas porque reduziu a Legenda de Francisco de três para um volume. Seus 17 anos de ministro geral marcaram. Alguns até viram nele um segundo Fundador da Ordem. 

    A Legenda Maior tem um Prólogo, quinze capítulos e um apêndice com milagres. Citamos o Prólogo como LM Pro 1-5; damos aos capítulos números romanos, colocando seus parágrafos , depois de uma vírgula, em números arábicos (LM IV,2); e citamos os dez capítulos dos milagres como LM m IV, 2.